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   Programa   

Sábado, 27 outubro, 20H30
Igreja de Nossa Senhora da Piedade (Matriz do Porto Santo)

Renaciendo – Música para organetto
Catalina Vicens, órgão portativo


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


No manuscrito associado ao Rei Afonso X “El Sabio” de Castela e Leão, existe uma das referências mais antigas ao órgão portativo na Península Ibérica. Esta grande coleção de Cantigas de Santa Maria, muitas compostas pelo próprio Afonso, contém ilustrações de instrumentos de origem árabe e cristã. Durante o reinado do Rei Afonso, o cristianismo, o judaísmo e islão coexistiam e influenciaram-se mutuamente em diversos domínios. Na música, foi através dos Árabes e da sua conservação de fontes da Antiguidade que o órgão, outrora um instrumento cerimonial que funcionava através de uma bomba de água, foi reintroduzido na Europa após séculos de extinção. Esta abertura intelectual também pode ser vista no neto de Afonso X, o rei português Dom Dinis, que era também poeta e compositor. As suas Cantigas de Amor, em comparação com as Cantigas de Santa Maria, tinham um outro tipo de devoção: a devoção à dama intocável, o Leitmotiv do repertório trovadoresco. Estas canções, também, eram frequentemente acompanhadas de instrumentos, que ou dobravam a melodia principal, improvisadamente, ou mantinham tons sustentados, ou bordões (frequentemente retratados nos primitivos organetti) como base.


Continuando com esta tradição de poesia de amor, dois poetas-compositores do século XIV são apresentados neste programa: Guillaume de Machaut, conhecido como o último poeta-compositor de França, e um dos maiores mestres do Trecento, o poeta e organista cego Francesco Landini. O florentino que definiu o novo estilo de polifonia a duas vozes em Itália foi retratado tanto em manuscritos como na sua própria lápide com um órgão portativo, instrumento que utilizava durante as suas execuções memoráveis. As suas canções profanas são frequentemente ambíguas, na medida em que o amor pela dama poderia ser tanto pela senhora terrestre da corte ou pela Virgem Maria. Aqui o órgão portativo tem o papel de ligação entre os dois mundos. Enquanto o órgão ganhou proeminência durante o século XIV como símbolo da Igreja Católica, o órgão portativo também era um dos instrumentos preferidos para o repertório profano. Muitas das obras de Landini até as dos compositores do século XV como Dufay também eram usadas como contrafacta, em que um texto devocional era cantado com uma melodia de uma obra popular profana e vice-versa, e repertórios populares profanos e sacros eram frequentemente combinados nas mesmas fontes, como o Buxheimer Orgelbuch e o Cancionero de la Colombina, outrora na posse do filho de Cristóvão Colombo. Melodies populares da Idade Média eram frequentemente cantadas em procissões e acompanhadas por instrumentos tais como o organetto: uma ligação entre a Igreja e o mundo pagão.


Uns 600 anos mais tarde, o órgão portativo foi ressuscitado, e hoje volta à vida através de novas composições para o instrumento. Neste programa, Carson Cooman, organista e mestre de capela residente na Universidade de Harvard, utilizou a tradição da cantiga como modelo para as suas Novas Cantigas, brincando com o uso medieval de modalidade e ritmo. O compositor finlandês Olli Virtaperko retrabalhou para o organetto um Lamento concebido originalmente escrito para viola da gamba. A obra desenvolve melodias simples na base de um bordão, mas dando liberdade ao executante para ornamentar a composição, utilizado o estilo característico de Guillame de Machaut.

 

Catalina Vicens

 

 

Anónimo (Codex Las Huelgas, c. 1300)

¬ Quis dabit capiti meo aquam

¬ Audi pontus, audi tellus

 

Alfonso el Sabio (1221-1282)

¬ Cantiga «Miragres muitos pelos reis faz»

 

Dom Dinis Rei Poeta (1261-1325)

¬ Cantiga «Que mui gran prazer que eu ei, senhor»

 

Carson Cooman (1982)

¬ Novas cantigas (2014) para Catalina Vicens

 

Martim Codax (fl. séc XII)

¬ Cantiga «Ai Deus, se sab’ ora meu amigo»

 

Francesco Landini (c. 1325-1397)

¬ Angelica biltà

¬ Ecco la primavera

 

Anónimo (Codex Rossi, séc. XIV)

¬ Lucente stella

 

Anónimo (séc. XIV)

¬ Chominciamento di gioia

 

Guillaume de Machaut (1300-1377)

¬ Dame vostre doulz viaire  

 

Olli Virtaperko (1974)

¬ Lamento of Ananias (2015/2018) para Catalina Vicens

 

Anónimo (séc. XIV)

¬ Saltarello

 

Wolfgang Chranekker (fl.1442)

¬ Sancta Katerina

 

[Guillaume Dufay] (1397-1474)

¬ Or me vault bien / Portugaler
    (Buxheimer Orgelbuch)

 

Juan Cornago (c. 1400-c.1474)             

¬ Pués que Dios te fizo tal graciosa
    (Cancionero de la Colombina)

 

Anónimo
(Codex Las Huelgas, c. 1300)

¬ Benedicamus Domino

  Participantes  

Sábado, 27 outubro, 20H30
Igreja de Nossa Senhora da Piedade (Matriz do Porto Santo)

Renaciendo – Música para organetto
Catalina Vicens, órgão portativo


Catalina Vicens

 

Louvada pelo seu lirismo, seu virtuosismo e seu brilhante estilo de tocar, a especialista em instrumentos antigos de teclado Catalina Vicens, nascida no Chile, tem tocado em todas as principais salas de concerto e todos os festivais de música antiga da Europa e dos Estados Unidos. Tendo-se especializado em tocar em instrumentos de tecla antigos, tem sido convidada a tocar no mais antigo cravo ainda tocável no mundo, o órgão gótico do século XV de S. Andreas em Ostönnen (um dos órgãos mais antigos e mais bem preservados no mundo), bem como instrumentos de várias colecções no Reino Unido, na Europa e nos Estados Unidos. É também reconhecida pelo seu trabalho com órgãos medievais portáteis e positivos, clavisimbalum e clavicytherium. Catalina Vicens estudou teclados históricos no Instituto de Música Curtis com Lionel Party, na Musikhochschule Freiburg com Robert Hill e na Schola Cantorum Basiliensis com Andrea Marcon e Jesper Christensen. Também recebeu o grau de mestre em teclados medievais com Corina Marti na mesma instituição. Neste momento é candidata de doutoramento na Universidade de Leiden/Instituto Orpheus, Gante, sob a supervisão de Dinko Fabris e Ton Koopman. Vicens grava e toca regularmente como membro de ensembles de música medieval, renascentista, barroca e nova na Europa, nos EUA e na América do Sul. É directora artística de Servir Antico, com quem recupera repertório menos conhecido e o património intelectual do período humanista.