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   Programa   

Sábado, 26 de Outubro, 21h30
Sé do Funchal

Saint-Saëns, Sinfonia «com órgão»
Orquestra Clássica da Madeira
João Vaz, Laura Mendes, órgãos
Martin André, direção


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Hector Berlioz (1803-1869)
La damnation de Faust
Dance des sylphs
Menuet de follets
Marche Rakoczy (marcha húngara)

 

Camille Saint-Saëns (1835-1921)
Sinfonia nº 3 em dó menor «com órgão»
Adagio – Allegro moderato – Poco adagio
Allegro moderato – Presto – Maestoso – Allegro

 


Orquestra Clássica da Madeira
João Vaz, Laura Mendes, órgãos
Martin André, direcção

 

 

O programa deste concerto apresenta dois compositores que se situam nos extremos do movimento sinfónico francês no século XIX. Hector Berlioz foi uma das primeiras figuras do Romantismo musical em França e a sua Symphonie fantastique, estreada em 1830, persiste como uma obra inovadora e uma das mais importantes daquele período. Camille Saint-Saëns, por outro lado, é um dos últimos representantes do Romantismo sinfónico francês e a sua terceira e última sinfonia (habitualmente designada «com órgão»), datada de 1886, é uma obra do período de maturidade do compositor, sobre a qual ele próprio afirmou: «Dei [a esta obra] tudo quanto podia dar. O que aqui consegui, não mais voltarei a atingir».

 

Para além da origem francesa e do facto de terem sido ambas compostas durante o século XIX, as duas obras apresentadas neste concerto têm em comum o facto de reflectirem uma orquestração exuberante. As primeiras peças do programa são andamentos orquestrais de La damnation de Faust, uma légende dramatique que Berlioz dedicou a solistas, um coro a sete vozes, coro de crianças e uma orquestra com um grande efectivo de sopros, cordas e percussão. Saint-Saëns exige também, para a sua Sinfonia nº 3, uma orquestra de grandes dimensões, à qual adiciona o piano (a duas e quatro mãos) e, claro, o órgão.

 

Embora a Sinfonia «com órgão» pareça apresentar apenas dois andamentos, estes subdividem-se em quatro, agrupados em dois pares. O primeiro contém um Allegro moderato (precedido de uma curta introdução) e um longo andamento lento (Poco adagio), e o segundo divide-se numa espécie de Scherzo (Allegro moderato – Presto), seguida do Maestoso – Allegro final. Mas, se Saint-Saëns se mantém algo conservador na estrutura formal da obra e mesmo ao nível das técnicas de composição utilizadas (forma sonata, fugato, transformação de temas, etc.), não deixa de surpreender pela orquestração, nomeadamente através da presença do órgão. Tendo em conta que Saint-Saëns era um dos mais afamados organistas do seu tempo, a utilização do órgão nesta obra é verdadeiramente original. Mantido em silêncio durante toda a gigantesca forma sonata do Allegro moderato inicial, surge sozinho e de forma quase introvertida no início do Poco adagio, criando pouco a pouco uma textura harmónica sobre a qual se apresenta um lírica melodia nas cordas. O órgão mantém-se nesta discreta posição ao longo do resto do andamento, voltando a calar-se no Allegro moderato – Presto, onde o piano irrompe pela primeira vez em escalas fulgurantes que se entrelaçam com a vivacidade da escrita orquestral. É só na última secção, e após a escrita scherzante do Presto precedente se dissolver num prolongado decrescendo, que o órgão se apresenta em toda a sua potência, sendo-lhe confiado um papel importante na exposição do tema final.

 

A Sinfonia «com órgão» pensada para uma sala de concertos com órgão, tendo sido estreada a 19 de Maio de 1886 em Londres no St James Hall (um grande auditório entretanto desaparecido), sob a direcção do compositor. Modernamente, e sobretudo nos países onde as salas de concertos com grandes órgãos não abundam, tornou-se frequente a apresentação desta obra em igrejas. Neste concerto – que marca a primeira apresentação da obra na Madeira – usar-se-ão em simultâneo os dois órgãos da Sé do Funchal.


João Vaz

  Participantes  

Sábado, 26 de Outubro, 21h30
Sé do Funchal

Saint-Saëns, Sinfonia «com órgão»
Orquestra Clássica da Madeira
João Vaz, Laura Mendes, órgãos
Martin André, direção


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Orquestra Clássica da Madeira

 

A Orquestra Clássica da Madeira é reconhecida como «o Projeto» de eleição para a difusão da música erudita, quer na formação de jovens músicos e dos públicos, quer como cartaz cultural e turístico da Região. A Orquestra, constituída por 43 músicos profissionais, é considerada uma das mais antigas do País em atividade. Teve a sua génese na Orquestra de Câmara da Madeira, fundada em 1964 pelo professor Jorge Madeira Carneiro. Em 1995, graças ao apoio decisivo do Governo Regional, passou a designar-se por Orquestra Clássica da Madeira, data a partir da qual se assiste a uma maior profissionalização. Foi dirigida pelos maestros titulares Zoltán Santa, Roberto Pérez e Rui Massena e por maestros convidados, nomeadamente, Gunther Arglebe, Silva Pereira, Fernando Eldoro, Merete Ellegaard, Paul Andreas Mahr, Manuel Ivo Cruz, Miguel Graça Moura, Álvaro Cassuto, Jaap Schröder, Luiz Isquierdo, Joana Carneiro, Cesário Costa, Paolo Olmi, Jean-Sébastian Béreau, Maurizio Dini Ciacci, Francesco La Vecchia, David Giménez, Martin André, Jean-Marc Burfin, Philippe Entremont, Maxime Tortelier, Rui Pinheiro, Pedro Neves, Ariel Zuchermann, Gianluca Marcianò, Ernst Schelle, e nela atuaram reputados solistas nacionais e internacionais. A Orquestra Clássica, que desde 2013 passou a ser gerida pela Associação Notas e Sinfonias Atlânticas, abraça um arrojado projeto artístico, proporcionando temporadas ricas em programas do período clássico, romântico e contemporâneo, integrando Ciclos de «Grandes Solistas», «Jovens Solistas» e «Grandes Obras».

 

 

João Vaz

 

João Vaz estudou em Lisboa com Antoine Sibertin-Blanc e em Saragoça com José Luis González Uriol. Para além dos seus estudos regulares frequentou cursos com professores como Edouard Souberbielle e Joaquim Simões da Hora, adquirindo um profundo interesse pela Música Antiga. É também doutor em Música e Musicologia, com uma tese sobre música portuguesa para órgão do início do século XIX. Tendo desenvolvido uma intensa carreira internacional, é frequentemente convidado para tocar em prestigiados festivais de órgão, assim como para ensinar em cursos de interpretação e para integrar júris de concursos internacionais. O seu interesse pela música portuguesa reflecte-se nas suas muitas gravações em CD (a maioria das quais efectuada em órgãos históricos portugueses) e no seu trabalho musicológico (artigos e edições musicais). Presentemente ensina na Escola Superior de Música de Lisboa. director artístico do Festival de Órgão da Madeira e das séries de concertos que se realizam nos seis órgãos da Basílica do Palácio Nacional de Mafra (de cujo restauro foi consultor permanente) e no órgão histórico da Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa (instrumento cuja titularidade assumiu em 1997).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Laura Silva Mendes

 

Nascida no Porto d Cruz, Laura Silva Mendes começou os seus estudos musicais na Associação Grupo Cultural Flores de Maio com a idade de seis anos. Dois anos mais tarde, começou a estudar piano no Conservatório – Escola das Artes Eng° Luiz Peter Clode, em Machico, Madeira, com Emesse Szepesi e mais tarde com Iryna Kózina e órgão com Halyna Stetsenko no curso profissional de música instrumental no Funchal. Em 2013, começou o curso de piano no Real Conservatório de Antuérpia, na Bélgica, com Polina Leschenko. Tem-se se apresentado frequentemente como solista e em formações de música de câmara na Sala Principal do Conservatório da Madeira, no Teatro Municipal Baltazar Dias, Finchal, e na Witte Zaal e na Blauwe Zaal no deSingel em Antuérpia. Em 2015 começou o seu mestrado em piano com Polina Leschenko e Eliane Rodrigues e o seu bacharelato em órgão com Joris Verdun no Real Conservatório de Antuérpia. Durante esses anos, assistiu a masterclasses de órgão com João Vaz, Benjamin Righetti, Maurizio Crossi, Ludger Lohmann, Esteban Landart e outros. Tem-se apresentado como organista em Portugal, França, Alemanha, Bélgica, Holanda e Grã-Bretanha. Em Fevereiro 2019, foi selecionado para participar na Academia ECHO em Bruxelas, e em Julho assistiu ao 55º Curso Internacional de Música do Estoril na Sé de Lisboa com Michel Bouvard. Candidatou-se com êxito ao Royal College of Music em Londres, onde prosseguirá os seus estudos de órgão.

 

 

Martin André

 

Martin André frequentou a Yehudi Menuhin School (onde estudou piano) e estudou música na Universidade de Cambridge. Fez a sua estreia profissional dirigindo uma versão de câmara da Aida para a Ópera Nacional de Gales, onde passou várias temporadas como maestro residente. Durante este período trabalhou um vasto reportório, dando particular atenção ao século XIX italiano. Entre 1993 e 1996 foi Diretor Musical da English Touring Opera, dirigindo óperas tanto em Londres como em digressões por todo o Reino Uno na Ópera ido. Em 1996 foi galardoado com o Arts Foundation Conducting Foundation. Martin André é o único maestro que já dirigiu todas as grandes companhias de ópera britânicas. Desde que deixou o seu cargo na Ópera Nacional de Gales, tem-se apresentado à frente da Royal Opera House, Glyndebourne Touring Opera, Ópera da Escócia, Ópera Nacional Inglesa, Opera North e Ópera da Irlanda do Norte. Em 2000 dirigiu uma produção gravado ao vivo para a BBC de Londres de Le Nozze di Fígaro. Atualmente divide a sua carreira profissional entre os teatros de ópera e as salas de concerto, dirigindo reputadas orquestras. A sua carreira internacional inclui compromissos na África do Sul, Albânia, Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Holanda, Israel, Itália, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, República Checa e Suíça.

 

   Notas ao Orgão   

Sábado, 26 de Outubro, 21h30
Sé do Funchal

Saint-Saëns, Sinfonia «com órgão»
Orquestra Clássica da Madeira
João Vaz, Laura Mendes, órgãos
Martin André, direção


 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Órgão Histórico

T. A. Samuel, 1884
Dinarte Machado (rest.), 1996

Na Sé do Funchal, a presença de um órgão surge documentada pela primeira vez no alvorecer do século XVI. Em 1739, D. João V ofereceu à Sé um novo órgão, construído em Lisboa pelo organeiro Francisco do Rego Matos. Em 1740, o Cabido mandou colocar este instrumento na primitiva tribuna, situada à esquerda da capela-mor. Encontrando-se num estado não funcional, em 1925 o órgão foi desarmado e, onze anos depois, oferecido à Igreja do Colégio. Em sua substituição, o Cabido da Sé optou por comprar o órgão então pertencente à Igreja Anglicana. A acta da sessão do Cabido da Sé, lavrada a 5 de Janeiro de 1937, refere “que por ordem de Sua Ex.ma Reverendíssima, o Senhor Bispo havia comprado o actual órgão que pertencia à Igreja Anglicana, cujo custo foi de trinta e quatro contos e quinhentos escudos, acrescidos das despesas de transporte, montagem, etc”, sendo colocado no coro alto à entrada da porta principal da Sé. Este instrumento, desde então várias vezes intervencionado, foi construído em Inglaterra no ano de 1884, por encomenda de um médico inglês que residia na Madeira e que também se dedicava à arte organística. A dada altura, este médico decidiu oferecê-lo à Igreja Anglicana.

 

O órgão resultara da colaboração de vários organeiros, tendo sido o responsável pela montagem T. A Samuel no ano de 1884 (Organ Builder, Montague Road, Dalston-London). Os tubos – ou uma parte dos tubos – foram construídos pela firma Charles S. Robson (1861), os someiros pela firma Wilson Gnnerson, os teclados pela firma S. W. Browne e uma parte dos tubos metálicos pela empresa A. Speneir (1884).

 

Originalmente munido de uma tracção mecânica, há três décadas o instrumento sofreu consideráveis modificações, tendo-se alterado partes do mecanismo e acrescido alguns registos palhetados “em chamada”. Estas intervenções acabaram por descaracterizar completamente o órgão, sem lhe conferir maior qualidade musical. Em consequência disto e com a intenção de proporcionar à Sé Catedral um instrumento adequado para fins litúrgicos e concertísticos, realizaram-se nos anos de 1995/96 importantes obras de restauro que foram levadas a bom termo por Dinarte Machado.


I Manual (C-g’’’)
Open Diapason 8’
Flöte 8’
Holz Bourdon 8’
Principal 4’
Waldflöte 4’
Nazard 2 2/3’
Super Octave 2’
Mixture 1 1/3’ de 4 filas
Dulçaína
Trompette 8’

II Manual (C-g’’’)
Voix Celeste 8’
Gamba 8’
Gedeckt 8’
Principal 4’
Spitzflöte 4’
Octave 2’
Simbala 1’ de 4 filas
Krummhorn 8’
Tremblant

Pedal (C-g’’’)
Subbass 16’
Open Diapason 16’
Octave 8’
Bombarde 16’
Trompette 8’

Acoplamentos
I/II
I/Pedal
II/Pedal

 

 

 

Órgão de Coro
Dinarte Machado, 2017

 

O novo órgão de coro da Sé do Funchal resultou de uma iniciativa Cabido da Sé, no sentido de dotar a Catedral de um instrumento fundamentalmente virado para as necessidades atuais do serviço litúrgico, mas simultaneamente apto para recitais e outros eventos de natureza não especificamente litúrgica. O órgão foi instalado no transepto sul, junto do altar e do coro (enfatizando a sua eminente vocação litúrgica), mas pode rodar sobre um eixo e ficar virado para nave central.

 

O desenho da caixa, da autoria do organeiro Dinarte Machado, resulta de uma interpretação livre dos arcos ogivais da Sé e a maioria dos elementos decorativos faz referência a aspectos religiosos (nomes de santos) ou tradicionais (cestos de vime). 


O órgão, cuja versão final resultou do diálogo entre o organeiro e o Mestre de Capela da Sé, Pe. Ignácio Rodrigues, possui dezasseis registos, distribuídos por dois teclados e pedaleira. A harmonização de todos aqueles registos teve em conta não só as múltiplas funções do instrumento, mas sobretudo a adaptação à acústica do templo.

 

A conceção fónica é profundamente original, não sendo feito à imagem de outro congénere, nem identificado com uma época ou estilo. Pretendeu-se que, usando da sua diversidade tímbrica e explorando as suas capacidades, os organistas pudessem fazer ouvir este instrumento em repertório de várias épocas e compositores, assim como incentivar os compositores atuais para usarem da sua criatividade e novas obras. Esta foi a visão do seu construtor, Dinarte Machado, que considera que o órgão «oferece toda a liberdade a um organista, enquanto improvisador».

 

 

I Manual – Órgão principal (C – g’’’)
Flautado 12 aberto [8’]
Flauta em 12 [8’]
Oitava real [4’]
Quizena [2’]
Mistura III vozes

 

II Manual – Órgão expressivo (C – g’’’)
Flautado 12 tapado [8’]
Viola da gamba [8’]
Flauta de chaminé [4’]
Dozena [2 2/3’]
Quinzena nazarda [2’]
Dezassetena [1 3/5’]
Dezanovena [1 1/3’]
Clarinete [8’]

 

Pedal (C – f’)
Flautado de 24 tapado [16’]
Flauta [8’]
Baixão [16’]

 

Acoplamentos
I - P
II - P
II - I