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   Programa   

Quinta-feira, 25 outubro, 21H30
Igreja e Recolhimento do Bom Jesus

Os primórdios da música para órgão

Catalina Vicens, órgão e órgão portativo


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


No manuscrito associado com o Rei Afonso X “El Sabio” de Castela e Leão, existe uma das referências mais antigas ao órgão portativo na Península Ibérica. Esta grande coleção de Cantigas de Santa Maria, muitas compostas pelo próprio Afonso, contém ilustrações de instrumentos de origem árabe e cristã. Durante o reinado do Rei Afonso, o cristianismo, o judaísmo e islão coexistiam e influenciaram-se mutuamente em diversos domínios. Na música, foi através dos Árabes e a sua conservação de fontes da Antiguidade que o órgão, outrora um instrumento cerimonial que funcionava através de uma bomba de água, foi reintroduzido na Europa após séculos de extinção. Esta abertura intelectual também pode ser vista no neto de Afonso X, o rei português Dom Diniz, que era também poeta e compositor. As suas Cantigas de Amor, em comparação com as Cantigas de Santa Maria, tinham um outro tipo de devoção: a devoção à dama intocável, o Leitmotiv to repertório trovadoresco. Estas canções, também, eram frequentemente acompanhadas de instrumentos, que ou dobravam a melodia principal, improvisadamente, ou mantinham tons sustentados, o bordões (frequentemente retratado nos primitivos organetti) como base.


Esta tradição de poesia de amor foi continuada por um dos maiores mestres do Trecento, o poeta e organista cego Francesco Landini. O florentino que definiu o novo estilo de polifonia a duas vozes em Itália foi retratado tanto em manuscritos como na sua própria lápide com um órgão portativo, instrumento que utilizava durante as suas execuções memoráveis. As suas canções profanas são frequentemente ambíguas, na medida em que o amor pela dama poderia ser tanto pela senhora terrestre da corte ou pela Virgem Maria. Aqui o órgão portativo tem o papel de ligação entre os dois mundos.


Durante o século XIV, o órgão da igreja como instrumento litúrgico também se tornou popular e, através de uma abundância de fontes iconográficas e literárias, é possível ver um aumento radical no número de órgãos construídos pela Europa fora. Durante este período, também se desenvolveram novas maneiras de notar a música, e enquanto grandes corpora de música vocal deste período sobreviveram, temos pouca música instrumental. Isto pode ser atribuído à forte dependência da vocalidade, mas também à sua natureza improvisada. Em comparação com a maior parte dos instrumentos da época, o órgão da igreja era capaz de tocar polifonia, e assim a arte complexa de tocar o órgão cedeu às primeiras tentativas de notar música instrumental: tabulaturas e intabulações para órgão.


Um dos mais importantes corpora de música para teclado da Idade Média tardia é o Codex Faenza. Nesta colectânea italiana escrita na viragem do século XV, encontramos música para órgão num estilo gótico flórido, com composições litúrgicas para duas vozes baseadas num cantus firmus. Mais tarde durante esse século, produziu-se na Alemanha um documento precioso de música para órgão e a arte de improvisar: o Buxheimer Orgelbuch. Este livro com instruções do organista cego Conrad Paumann também contem arranjos de canções profanas alemãs, italianas e francesas, incluindo uma canção de Guillaume Dufay, transmitida com o nome de “Portugaler”. Semelhantes são as obras nos livros alemães de tabulatura de Adam Ileborgh, Amerbach e Hans Kotter. Combinam peças improvisatórias livres com arranjos de melodias populares e obras sacras. Outro exemplo da combinação de repertórios sacros e profanos populares encontra-se numa fonte espanhola do século XV tardio: o Cancionero de la Colombina, outrora na posse do filho de Cristóvão Colombo, apresentada aqui numa intabulação para órgão feita pela executante.

 

Catalina Vicens


 

ÓRGÃO PORTATIVO

 

Anónimo
(Codex Las Huelgas, c. 1300)

¬ Quis dabit capiti meo aquam

¬ Audi pontus, audi tellus

 

Alfonso el Sabio (1221-1282)

¬ Cantiga ‘Miragres muitos pelos reis faz’

 

Anónimo
(Codex Rossi, séc. XIV)

¬ Lucente stella

 

Francesco Landini (c. 1325-1397)

¬ Angelica biltà

 

Anónimo (séc. XIV)

¬ Chominciamento di gioia

 

Dom Dinis, Rei poeta (1261-1325)

¬ Cantiga «Que mui gran prazer que eu ei, senhor»

 

Wolfgang Chranekker (fl.1442)

¬ Sancta Katerina

 

Anónimo
(Codex Las Huelgas)

¬ Benedicamus Domino


 

 

ÓRGÃO

 

Anónimo (Codex Faenza, séc. XIV/XV)

¬ Ave maris stella

Conrad Paumann (c. 1410-1473)

¬ Redeuntes in re

¬ Mit ganczem Willen
(Lochamer Liederbuch / Buxheimer Orgelbuch, séc. XV)

 

Anónimo (Ms. Breslau I. Qu 438, séc. XV)

¬ Gloria

 

Anónimo (Adam Ileborgh Tablatur, 1448)

¬ Preambulum bonum pedale seu manuale in d

¬ Frowe al myn hoffen an dyr lyed

 

Anónimo (Buxheimer Orgelbuch)

¬ Praeambulum in a

 

Anónimo (Amerbach Tablatur séc. XV/XVI)

¬ Si dormiero

 

Hans Kotter (c.1485-1541)

¬ Harmonia in sol

 

Anónimo
(Buxheimer Orgelbuch)

¬ O rosa bella

 

Heinrich Isaac (c. 1450-1517)

¬ Tristitia vestra
(Amerbach Tablatur)

 

Anónimo (Codex Faenza)

¬ Biance flour

 

Anónimo (Buxheimer Orgelbuch)

¬ Adieu mes tres belles

 

Hans Kotter

¬ Prooemium in re

 

[Guillaume Dufay] (1397-1474)

¬ Or me vault bien / Portugaler
(Buxheimer Orgelbuch)

 

Juan Cornago (c. 1400-c.1474)

¬ Pués que Dios te fizo tal graciosa
(Cancionero de la Colombina)

 

Anónimo (Codex Faenza)

¬ Benedicamus Domino

  Participantes  

Quinta-feira, 25 outubro, 21H30
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Os primórdios da música para órgão

Catalina Vicens, órgão e órgão portativo


Catalina Vicens

 

Louvada pelo seu lirismo, seu virtuosismo e seu brilhante estilo de tocar, a especialista em instrumentos antigos de teclado Catalina Vicens, nascida no Chile, tem tocado em todas as principais salas de concerto e todos os festivais de música antiga da Europa e dos Estados Unidos. Tendo-se especializado em tocar em instrumentos de tecla antigos, tem sido convidada a tocar no mais antigo cravo ainda tocável no mundo, o órgão gótico do século XV de S. Andreas em Ostönnen (um dos órgãos mais antigos e mais bem preservados no mundo), bem como instrumentos de várias colecções no Reino Unido, na Europa e nos Estados Unidos. É também reconhecida pelo seu trabalho com órgãos medievais portáteis e positivos, clavisimbalum e clavicytherium. Catalina Vicens estudou teclados históricos no Instituto de Música Curtis com Lionel Party, na Musikhochschule Freiburg com Robert Hill e na Schola Cantorum Basiliensis com Andrea Marcon e Jesper Christensen. Também recebeu o grau de mestre em teclados medievais com Corina Marti na mesma instituição. Neste momento é candidata de doutoramento na Universidade de Leiden/Instituto Orpheus, Gante, sob a supervisão de Dinko Fabris e Ton Koopman. Vicens grava e toca regularmente como membro de ensembles de música medieval, renascentista, barroca e nova na Europa, nos EUA e na América do Sul. É directora artística de Servir Antico, com quem recupera repertório menos conhecido e o património intelectual do período humanista.

 

   Notas ao Orgão   

Quinta-feira, 25 outubro, 21H30
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Os primórdios da música para órgão

Catalina Vicens, órgão e órgão portativo


Igreja e Recolhimento do Bom Jesus, Funchal

Este pequeno órgão positivo foi construído em 1781 por Leandro José da Cunha (n. 1743 – m. após 1805), natural de Lisboa e um dos três construtores identificados desta família de organeiros. Leandro era filho do organeiro João da Cunha (n. 1712 – m. 1762), igualmente natural de Lisboa, que construiu o órgão da igreja de Nossa Senhora da Luz, de Ponta do Sol. 

 

O órgão representa um tipo de instrumento muito característico para o conceito da organaria portuguesa da primeira metade do século XVIII. O facto de o instrumento não ter possuído – originalmente e à semelhança com muitos outros positivos daquela época – um registo base de 8’ (q. d. de 12 palmos) mas apenas de 6 palmos, parece indicar uma prática musical que contava com o reforço da região grave por meio de um outro instrumento.

Manual (C, D, E, F, G, A-d’’’) 
Flautado de 6 tapado (4’)
Quinzena (2’)
Dezanovena (1 1/3’)
22ª e 26ª
Sesquialtera II (c#´-d´´´)