Programa Catálogo Galeria Informações Úteis

   Programa   

Sábado, 19 de Outubro, 21h30
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
(Matriz de Machico)

O caminho para Monteverdi
Rosana Orsini, soprano
Marco Aurelio Brescia, órgão


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Canto Gregoriano
Veni Sponsa Christi

 

Jacopo Fogliano (1468-1548)
Recerchada di Jacobo Fogliano da Modena

 

Marco Antonio Cavazzoni (c.1485-p.1569)
Recercada di mã[rcantonio] ca[vazoni] in Bologna

 

Girolamo Cavazzoni (c.1510-p.1577)
Hymnus Ave maris stella

 

Josquin des Prez (1440-1521)
Mille Regretz [cantato sull’organo]

 

Andrea Gabrieli (1533-1585)
Ricercare del terzo tuono
Canzon detta Qui la dira tabulata

 

Giovanni Paolo Cima (c.1570-1622)
Surge Propera
Ricercare per organo

 

Adriano Banchieri (Bolonha, 1568 – 1634)
Canzon Undecima, L’organistina bella, in Echo

 

Lucrezia Orsina Vizzana (1590-1662)
O Magnum Mysterium
Sonet vox tua

 

Girolamo Frescobaldi (1583-1643)
Partite 11 sopra l’aria di Monicha

 

Claudio Monteverdi (1567-1643)
Laudate Domino

 

 

 

Para jovens mulheres musicistas nos séculos XVI e XVII, o ingresso na clausura de um convento era a hipótese mais idónea para exercer o ofício musical de forma respeitável. Quando detentoras de alguma habilidade musical em concreto, como, por exemplo, tanger o órgão, as jovens reclusas poder-se-iam beneficiar de consideráveis reduções no valor do respetivo dote, para chegar até à sua completa isenção. Mesmo que o número de autênticas vocações religiosas pudesse ser limitado, para inúmeras mulheres o claustro representava uma liberdade inacessível a uma mulher secular, sobretudo para as musicistas, que podiam desenvolver os seus talentos num espaço que lhes proporcionava os melhores meios para o fazer, sem detrimento para o prestígio das suas famílias, muitas ilustres. A atividade musical nos conventos femininos, sobretudo do Norte de Itália, é de todo notável durante o Renascimento e o Barroco. Ainda que não abundem manuscritos vocais conventuais do período em causa ainda preservados, a documentação filológica de muitas instituições religiosas revela uma prolífica produção musical. Obras profanas de origem franco-flamenga, bem como obras compostas por compositores italianos ilustres, fizeram parte do repertório instrumental e vocal das freiras musicistas, para além de obras a elas dedicadas, como algumas composições do compositor milanês Giovanni Paolo Cima. Algumas freiras também se destacaram como compositoras ou, ainda, intérpretes renomadas, tal foi o caso de Lucrezia Orsina Vizzana, reclusa no Convento de Santa Cristina de Bolonha. Outras obras instrumentais, em voga no mundo secular, aludem aos encantos das religiosas tangedoras de órgão, como a canzona L’Organistina Bella de Adriano Banchieri, ou à sua presença no coro dos conventos, como nas Partite 11 sopra l’aria di Monicha de Girolamo Frescobaldi, compostas a partir uma canzonetta que narra a resistência de uma jovem em vestir o hábito imposto pela família. Notabilíssima é a presença do órgão no seio da vida conventual, imprescindível para o pleno funcionamento das cerimónias religiosas e parte essencial na formação musical das monjas. O presente concerto remete-nos a um tempo em que os conventos femininos eram numerosos em praticamente todos os principais centros urbanos da Europa católica e, igualmente, em povoações que se desenvolveram ao redor dos mesmos , marcando não só a paisagem urbana e rural como também a vida cultural das cidades e da província, seja pelo alto virtuosismo técnico e artístico alcançado pelas suas intérpretes musicais, seja pelo génio criador de algumas monjas compositoras. Muito para além da função religiosa ou social desempenhada por um convento feminino no Cinque-Seicento italiano, o legado artístico deixado pelas religiosas daquela tempo conforma hoje um património imaterial de valor inestimável, capaz de evocar a misteriosa vida intramuros nas suas mais diversas aceções, microcosmo imbuído de devoção e iniludível humanidade.

 

Rosana Orsini e Marco Brescia

  Participantes  

Sábado, 19 de Outubro, 21h30
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
(Matriz de Machico)

O caminho para Monteverdi
Rosana Orsini, soprano
Marco Aurelio Brescia, órgão


 

 

Rosana Orsini

 

Rosana Orsini atua regularmente em prestigiados festivais, teatros e salas de concertos do Brasil, Estados Unidos, Panamá, Portugal, Espanha, Reino Unido, República Tcheca, Eslováquia e Itália. Graduada em canto lírico pela Universidade Federal de Minas Gerais, Mestre em canto pela Manhattan School of Music de Nova York, Pós-graduada em canto pela Royal Academy of Music de Londres e Mestre em História Moderna e Contemporânea pela Université Paris IV – Sorbonne, Rosana Orsini é Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade Paris IV – Sorbonne e em Ciências Musicais pela Universidade NOVA de Lisboa e investigadora da FCSH – CESEM / NOVA de Lisboa. No campo da Música Antiga, especializou-se em prassi executiva barocca no Conservatorio di San Pietro a Majella de Nápoles, sob a orientação de Antonio Florio, e no Curso Internacional de Interpretación Vocal Barroca em León, sob a orientação de Eduardo López Banzo. Colaborou com diversos grupos especializados na interpretação histórica da Música Antiga, tais como o Esprit Ensemble, National Gallery of Art Chamber Players, Il Combattimento, Scarlatti Lab, Cuarteto Alicerce, Favola d’Argo, entre outros. Rosana Orsini assinou a direção artística das encenações de Il Ballo delle Ingrate de Claudio Monteverdi e Vendado es amor, no es ciego de José de Nebra no enquadramento do Festival Internacional de Música Antiga e Música Colonial Brasileira de Juiz de Fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

Marco Brescia

 

Marco Brescia iniciou os seus estudos ao órgão com José Luis González Uriol nos Cursos Internacionales de Música Antigua de Daroca. Em 2013, concluiu o mestrado em Interpretação da Música Antiga / Órgão Histórico na Escola Superior de Música da Catalunya, sob a orientação de Javier Artigas e com obtenção da «Matrícula de Honor». No mesmo ano, defendeu a sua tese de doutoramento em Organologia na Universidade Paris IV – Sorbonne, em cotutela internacional com a Universidade NOVA de Lisboa, obtendo a menção máxima «très honorable à l’unanimité». Como intérprete, Marco Brescia é regularmente convidado por prestigiados festivais e ciclos internacionais de concertos na Europa e Américas, tendo colaborado com grupos e artistas de renome como Marco Beasley, Ministriles de Marsias, Real Filharmonía de Galicia e Il Combattimento. Desde 2006, forma um aclamado duo com o soprano Rosana Orsini. Foi coordenador técnico do restauro crítico do órgão histórico Almeida e Silva de Diamantina (1787). É membro da Comissão dos Órgãos Históricos dos Açores e da comissão científica para o restauro do órgão histórico do Palácio Nacional de Queluz. O seu trabalho em prol da salvaguarda e restituição do património organístico histórico brasileiro foi reconhecido com a Medalha de Honra Presidente Juscelino Kubitschek. A sua discografia inclui os títulos Angels and Mermaids (Arkhé Music, 2016), com Rosana Orsini, e Zipoli in Diamantina (Paraty, 2019).

 

   Notas ao Orgão   

Sábado, 19 de Outubro, 21h30
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
(Matriz de Machico)

O caminho para Monteverdi
Rosana Orsini, soprano
Marco Aurelio Brescia, órgão


 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Machico)

Na documentação histórica anterior ao século XX constam observações que se referem a dois instrumentos: um foi oferecido, segundo a tradição historiográfica, em 1499, à Igreja de Nossa Senhora da Conceição pelo rei D. Manuel, e um outro adquirido em 1746. No que diz respeito ao órgão manuelino podemos deduzir que ele foi colocado no arco que se abre sobre o cadeiral do lado do Evangelho da capela-mor. No século XVIII, o estado de conservação deste órgão terá deixado muito a desejar, verificando-se a aquisição do segundo instrumento em 1746. O órgão chegou à Madeira em 1752, tendo o Conselho da Fazenda contribuído, inicialmente, nas despesas da sua compra e, posteriormente, nos custos da sua instalação.

 

O recente restauro, da responsabilidade de Dinarte Machado, teve como objectivo principal restituir, na medida do possível, a sua constituição original, seguindo as indicações dadas pelas próprias peças durante a desmontagem. Assim, no decorrer do restauro optou-se por uma filosofia de intervenção que tivesse sempre em conta as particularidades das peças originais, desde à configuração da caixa e policromia, à reposição da registação, tubaria, folaria, e até à colocação do instrumento no seu local original - a capela-mor. Ainda em relação à composição do instrumento, reintroduziu-se o meio-registo da mão direita, de palheta, que o órgão indicava possuir originalmente e que, de certa forma, o caracteriza. O teclado original, encontrado a monte e que se conseguiu recuperar, mantém a extensão da época com Oitava curta. Ficou completada, com grande rigor, a nova tubaria de acordo com as características que os poucos tubos originais conservados evidenciavam, comparada com as próprias indicações e dimensões do someiro, que também foi minuciosamente estudado e documentado.

 

Não há dúvidas que se trata de um dos mais belos órgãos da Ilha da Madeira, sendo um dos instrumentos que conserva algumas das mais relevantes características da organaria do século XVII em Portugal. É de salientar ainda que o trabalho de restauro desencadeado nesta peça exigiu o estudo de muita documentação, assim como comparações com outros órgãos da época. Uma vez que tais instrumentos não existem em Portugal, teve de se recorrer a dados em outros países. 


Manual (C, D, E, F, G, A-c’’’) 
Flautado de 12 palmos (8’) 
Flautado de 6 palmos (4’)
Flauta doce 
Dozena (2 2/3’)
Voz humana (c#’-c’’’)
Quinzena (2’)
Composta de 19ª e 22ª
Sesquialtera II (c#’-c’’’)
Clarim* (c#’-c’’’)


* palhetas horizontais